Como as estatísticas criaram um maratonista Olímpico

Quando Jared Ward estava mais ou menos na metade da Maratona Olímpica na Rio 2016, algumas dúvidas começaram a surgir na sua cabeça. Uma parte do pelotão onde ele estava correndo começou a se dissipar e ele ponderava se realmente conseguiria terminar aquela corrida.

Ele não apenas chegou ao final como chegou em sexto lugar. Nas Olimpíadas. Na quinta maratona de toda sua carreira. Impressive.

Duas coisas contribuíram para que o norte-americano vencesse suas próprias dúvidas: a primeira foi pensar na corrida em porções, correndo o próximo quilômetro ao invés de tentar correr o resto da prova inteira, e a segunda foi seu conhecimento de estatística.

Dividir tarefas em porções menores é uma reconhecida estratégia de gestão. A quebra de grandes projetos em pequenas atribuições que serão mentalmente menos exigentes possibilita uma melhor administração do todo. O uso de estatísticas, especialmente em maratonas Olímpicas, é menos comum.

Jared estudou e foi bolsista corredor na Brigham Young University, em Utah, uma das mais respeitadas universidades nos estudos estatísticos e analíticos. O departamento de estatísticas da BYU sozinho já atuou para times da NFL e da NBA, além de projetos com o próprio Comitê Olímpico dos EUA e a ESPN. Com o apoio dos professores da universidade, o maratonista começou a ter uma visão muito mais analítica (tanto macro quanto micro) da corrida e de seu desempenho.

No nível marco, ele olhou para pesquisas sobre performance em maratonas que apontaram dois insights: (1) maratonistas de elite correm em um ritmo mais ou menos constante – eles não aceleram ou diminuem muito o ritmo durante a corrida; e (2) eles usam o terreno a seu favor acelerando em descidas e diminuindo em subidas. Esses insights formaram a base da estratégia de Jared para estimar um ritmo constante que ele tentaria reproduzir na prova, exceto quando o terreno o faria se adaptar.

No nível micro, ele olhou para dados de sua própria performance para entender qual seria o seu ritmo. Ele utilizou todos os seus treinos e corridas como base de dados e depois tentou entender quais fatores ajudaram e atrapalharam suas performances. Em seguida, usando treinos específicos que simulavam o terreno da Rio 2016, ele estimou o ritmo básico necessário para chegar entre os 10 primeiros da maratona.

Esse trabalho empírico deu a confiança necessária para que, na linha de largada, Jared acreditasse que ele não só chegaria ao final como chegaria entre os primeiros.

“Os dados mostram que estou pronto para correr em 2:10,” disse ele antes da prova.

Foi nessa confiança em dados que ele se apoiou no meio da corrida, quando as dúvidas começaram a surgir. Ele sabia que se mantivesse o plano – mesmo com alguns corredores se separando do pelotão – ele terminaria entre os 10 melhores. Carregando as estatísticas consigo e com a força mental para vencer o corpo dolorido, Jared Ward cruzou a linha de chegada em sexto lugar com o tempo de 2:11:30 (o seu melhor já registrado).

A história de Ward é bem mais do que apenas sobre estatísticas, é claro, mas é um exemplo real de como dados podem ajudar uma performance Olímpica.

Nós poderemos ver os dados colocados em prova novamente por Ward – e seu parceiro de time Galen Rupp, que ganhou o bronze nessa mesma prova na segunda maratona de sua carreira – nos preparativos para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. Ou, se você for até Utah e der uma passada na BYU, poderá encontrar o novo professor Jared Ward dando aula de estatística entre um treino e outro.